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Foto na frente do teatro municipal de São Paulo em 7 de julho de 2024.

MNU 46 ANOS COMBATENDO O RACISMO

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OLHA PARA ÁFRICA - REFLEXÕES. 
Lenny Blue/José Luiz Griot/Maicon Nunes
(TESE QUE DEU ORIGEM AO CONSELHO GRIOT DO MNU)

BREVE CONJUNTURA: 
   A pandemia da covid-19, após vitimar em torno de 700 mil pessoas na sua maioria pobres, pretos e periféricas deste país, apresentou mais uma face da desigualdade no acesso à saúde, à alimentação e educação. 
   As políticas de Isolamento social impostas devido a este grande mal, obrigou as pessoas a permanecerem em suas casas e a dependerem do acesso a políticas sociais compensatórias. Salienta-se que as políticas sociais foram criminosamente mal instituídas durante este período, onde nosso povo passou por severas privações.
   Diante das ameaças constantes à democracia do anterior governo, o Movimento Negro Unificado - MNU no ano de 2022 realizou em Recife - PE o XIX Congresso Nacional, que apesar de contar com uma estrutura nunca vista em congressos anteriores, os inúmeros desencontros e conflitos internos ocorridos durante a realização do referido congresso, culminaram com a sensação de que no MNU é apenas brigas, disputas e apego ao poder. ​A luta por “Bem Viver” do nosso povo permanece bem presente e a “esperança a venceu o medo” após a eleição do trabalhador Luiz Inácio Lula da Silva. 
   Neste contexto o MNU tem muito a avaliar em relação a eleição de Lula, que embora tenha sido um ganho político, não tem significado a emancipação do nosso povo, longe disto, as forças democráticas continuam sub-representação no âmbito político e no governo, conforme se depreende, inclusive, das reformulações contínuas na representação do povo preto nos órgãos de decisão. Veja a nomeação de Dino em contraponto ao apelo do movimento negro para a indicação de uma mulher negra a vaga no STF. ​
   Fica demonstrado o quão excludente somos e o quanto temos por avançar para garantir a representatividade real que compõem a sociedade brasileira em termos demográficos/raciais.  
  A disputa eleitoral 2022, demonstrou que embora existindo leis que aparentam garantir uma melhor representatividade das pessoas negras no cenário político, na prática, serviu para que a afro-conveniência, existente nos vários setores da sociedade, fosse visualizada nos partidos políticos;  setor esse, que com algumas exceções, pouco tem feito para garantir uma melhor representação das pessoas negras no processo político.
    No Estado de São Paulo, governado atualmente pela representação do bolsonarismo, as desigualdades e desafios que colocam o MNU como cerne da discussão política. A disputa pela implementação do projeto político para o povo negro no nosso estado, governado há mais de 20 anos por forças conservadoras, implica no fortalecimento do movimento negro nos municípios paulistas que deve ser um esforço prioritário. 


1 - O MOVIMENTO NEGRO E O DESAFIO DA DEMOCRACIA - GT´S - SOLUÇÃO RADICAL PARA À DEMOCRACIA INTERNA NO MNU:  


   Nossa Ancestral Lélia Gonzalez, reflete em seus escritos a falta de solidariedade entre nós na luta política e como esta ausência contribui na desconstrução de quadros e desunião. 
   É tempo de radicalizar a democracia com olhar em África, rememorando em nossa memória ancestral a ética contida no vocábulo UBUNTU. O princípio UBUNTU ‘sou porque somos pressupõe a inclusão de todos e se baseia na construção coletiva embasada no nosso sentido de bem viver.  
   A cooptação de nossas lideranças, principalmente pelos partidos políticos, embora benéfica para a causa do povo negro, tem ocasionado alguns equívocos, notadamente quando nos afastamos dos princípios africanos do convívio e respeito e quando alguns atuam como aliados com os feitores e contribuem para a dispersão de ideias e ideais (GONZALEZ, 1991).
   Temos que combater entre nós, aqueles que não contribuem ou até atrapalham a luta política, e até mesmo os que se encontram alinhados a velha forma de fazer política, como feitores da política brasileira e atuando em benefício próprio.
  Essas práticas, antidemocráticas, têm repercussões internas no MNU, uma vez que algumas lideranças se perpetuam no poder, inclusive de maneira deliberada, atuando para a desmobilização de lideranças negras e centralização do poder.
   Um movimento com a grandeza do MNU não deve ser conduzido pela centralização, principalmente em um estado como o nosso. Nesta perspectiva, a radicalização democrática já proposta em documentos internos referentes à metodologia de constituição de GT´s (Grupos de Trabalho), cumprem um papel fundamental para o aprofundamento de discussões setoriais de interesse da organização.
   O GT é uma forma de descentralização de poder. O GT é radicalismo democrático. Não se aperceber da importância dos GT’s vem trazendo consequências nas diversas articulações. A partir da construção de grupos de trabalho estaremos cumprindo a filosofia Ubuntu contra o individualismo, entendendo que o ensinamento ético e social através do “ser-com-os-outros” é o ponto essencial da filosofia africana. O filosofo SPINOZA fala sobre ética na transcendência, o que se pressupõe que a boa vontade é o melhor campo para construir solidez do contrário, não conseguiremos impedir a autodestruição fundamentada nos moldes eurocêntricos. Temos que embasar nossa construção encarando a ética como instrumento de salvação entre as pessoas de boa vontade. E o que é boa vontade entre nós? De novo, é tempo de  retornarmos a Sankofa: Voltar atrás para buscar o que é instrumento verdadeiro entre nós.

   A nível prático, é tempo que refletir acerca da existência de feudos locais onde lideranças existentes se apoderam dos espaços de maneira a não ampliar a discussões nos seus territórios, visando sua perpetuação no poder, como donos do movimento. Os assim chamados’ donos dos movimentos’ se apropriam da burocracia, imitando comportamentos eurocêntricos, tais como apagamento, cancelamento, teses de derrubada, esquecendo dos objetivos vitais da luta que o movimento se propõe. Tais moldes não deverão nos influenciar, porque não revolucionam. Assim sendo, é preciso lutar contra a burocratização do movimento que gera à passividade dos militantes, uma vez que o burocrata sempre se posiciona contrário à luta emancipatória e as possíveis revoluções que possam existir dentro do movimento visando inovação e  melhoria.
   Entre nós, alguns se apoderam da simbologia que o MNU traz consigo, visando à autopromoção e o individualismo, atitudes que não encontram amparo em Palmares.

    O Projeto político do povo negro só será possível se vivermos a ética embasada no amor inexorável que é delicado e não pode cair no lugar-comum ao contrário, a ética e o amor devem ser exercidos em um modelo de bem viver embasado no exercício da democracia plena, entre nós e por nós.  

2- PACIFICAÇÃO E SAÚDE MENTAL DOS MILITANTES DO KEMET EGÍPCIO A PALMARES: AQUILOMBAMENTO. 

​    Quilombo é mais do que uma palavra de origem africana. O quilombo traz para nós o significado que nos remete à ancestralidade vivida pelo nosso povo no Quilombo de Palmares.  É a concretude que visualizamos em termos de território, familiaridade e experiência democrática. 
   Reconforta saber que tivemos uma casa, um lar, um convívio social alicerçado na filosofia africana que motivou a luta por liberdade. Como iniciativa pioneira no novo continente, em Palmares, fomos realmente livres e neste sonho e projeto, visualizamos e nos inspiramos nosso Bem Viver.​Como é difícil viver em paz! À paz que almejamos é a paz encontrada em Palmares, é este sonho de liberdade que vislumbramos quando lutamos no nosso dia a dia contra o racismo.  A paz de Palmares é uma paz de luta e não uma paz passiva, a plenitude da paz em Palmares é a paz conquistada com suor e sangue. 
   Comunidade não é harmônica sempre, conflitos aparecem. A violência colonial e o modelo de individualidade no capitalismo atingem a comunidade. Há que se acolher o espirito e exercitar a conexão com o ritual de escuta, aprendendo a lidar com percepções diferentes, mas com firme propósito de construir a conexão com o coletivo, com a comunidade.

   Nosso ritual para a convivência deve refletir os princípios do Maat, tais como a verdade, ordem, equilíbrio, harmonia, justiça, retidão, reciprocidade e amor para fortalecimento e desenvolvimento da comunidade.​

    A luta militante não pode estar dissociada desse projeto pacífico e de paz interior duradoura e sustentável; mas precisamos pensar sustentabilidade também numa perspectiva de paz e harmonia entre nós que já somos vítimas das mais diversas iniquidades provocadas pelo racismo.  
    É o exercício do amor que nos impulsiona, é o cuidado mútuo que nos reconecta com a comunidade, bloqueando tentativas de violentas de desconexão. O ritual do amor fortalece a comunidade evitando as armadilhas do mundo neoliberal, onde competitividade e meritocracia funcionam como valores e moedas de troca. Isso não nos pertence. 
   Não é o legado de nossos ancestrais. Nossa paz não pode ser uma paz tímida ou a paz dos mortos. Nossa paz necessita ser fruto da ação concreta com valores do Maat, onde o respeito, a cortesia, partilha, generosidade, confiança, solidariedade, o desprendimento, afeto genuíno e principalmente nosso “Bem Viver” seja garantido em sua plenitude. Não podemos permitir que a prática do fratricídio se torne algo comum entre nós entre as fileiras do MNU.
​   O MNU é convidado a ser este espaço herdado de Palmares, o modelo de estado africano que serviu de exemplo para a construção de outras experiências nos mais diversos quilombos existentes no século XVIII e XIX Brasil afora (NASCIMENTO, 1987), assim o MNU é o modelo de organização Nacional Negra brasileira na nossa contemporaneidade. A perspectiva de paz, aquilombamento e saúde mental vivenciado em Palmares precisa ser refletida entre a militância do MNU e sabemos que é um grande desafio combater o apagamento de nossas lideranças negras de maneira sistemática, é o fruto da burocratização das relações dentro do movimento, onde as pessoas se aproximam do MNU vivenciam momentos de disputa e logo se decepciona e saem abandonando à luta.       Toda vez que isso acontece assassinamos a uma liderança de Palmares e queremos que isso acabe.
  O MNU deve ser esse espaço de tranquilização, acolhimento, solidariedade e afeto que caracteriza o aquilombamento, nos projetando para a paz vivenciada em Palmares, a paz de Palmares.
  O MNU deve ser o lugar de protagonismo do Povo Preto, um ambiente onde haja condições para o desenvolvimento pleno de nossas personalidades, da nossa capacidade produtiva e criativa, intelectual e cultural, dando a nós o sentimento de segurança, acolhimento e fraternidade.  Assim o quilombo é, e continuará sendo nosso lugar, o nosso território como descrito por Beatriz Nascimento: "Quilombo hoje é o momento de resgate histórico. Estamos presente em nós entre nós no mundo “(NASCIMENTO, 1990). O MNU é o nosso quilombo!


3- RETORNO À CASA DOS NOSSOS MAIS VELHOS - O MNU É À CASA DE VOCÊS.  


   A tradição nagô ensina que “Esu” sai todos os dias como uma criança da sua casa pela manhã após acordar, retornando ao final do dia encurvado e cheio de conhecimento e sabedoria colhido durante um dia de luta e trabalho como um ancião: 


       Ji Ki Bará ba ọÀgọ Mòjùbá ibà aṣẹ (bis)

       Ọmọdé agọ ekodile  bara bà o

       Àgọ MòjùbáElégbára

       Èsú àgọ lọnà!
                        (Orin mimo Èṣù na tradição Nagô)​

 

   Os mais velhos ou anciães na cultura Yorubá são reconhecidos pelo papel de preservação da tradição, pelas suas experiências de vida, pela cultura e principalmente pela sabedoria.  São líderes espirituais em muitas comunidades e recai sobre eles a responsabilidade de transmitir ensinamentos e valores da cultura para as gerações mais jovens e assim preservar e transmitir a tradição religiosa e cultural na comunidade, um dos símbolos mais importantes associados à experiência, conhecimento dos mais velhos na cultura iorubá é o "òrìṣà Èsù Òdàrà"  divindade que representa a comunicação e  interação entre as pessoas e sabedoria, representado por um velho de cajado na mão simbolizando o poder e autoridade que as ciências possuem (Camará, 2017).
   O MNU, assim como no quilombo, é espaço para reconhecimento dos nossos mais velhos em vida, para reverência e referência junto aos mais novos, além de reconhecimento pela obra que por suas mãos as gerações subsequentes hoje têm a oportunidade de usufruir o  espaço que lhes pertence.Nossa luta vem de longe, e o MNU deve intervir para o reconhecimento dos nossos mais velhos ainda presentes nas fileiras do movimento ou não.​Em relação aos que estão fora do MNU é preciso pensar o caminho e construir as pontes, para que os nossos fundadores retornem em segurança e sejam devidamente acolhidos como nossas lideranças maiores, merecedores do reconhecimento em vida. ​
   Tais lideranças não estão sendo convidadas a participar de disputas, embates políticos e cargos de direção, mas sim para serem reconhecidas e referenciadas pelas infindas contribuições ao movimento negro-brasileiro na casa que é de cada um de nós e de cada um deles. ​Portanto, devemos atuar para que esta aproximação ocorra: você que está fora do MNU é bem-vindo a sua casa. 
   Quando falamos em honrarias e reconhecimento não estamos falando de uma perspectiva da adulação, e sim que os nossos mais velhos, entendam que a maior honra que eles podem receber entre nós é perceber que a luta iniciada por eles tem prosseguimento e os ideais tiveram avanço significativo. ​Esta é sem sombra de dúvida a melhor forma de honrar os nossos pais mães de luta, sem perder de vista a perspectiva de uma escuta qualificada dos nossos mais velhos. 
   O Quilombo MNU é um território vivo, onde se encontra um lar para o coração e para a alma. É o espírito onde as pessoas estão em sintonia umas com as outras e pelos ancestrais para mantermos firmes no proposito comunitário utilizando o poder de modo responsável.
  Deve permear esta iniciativa a visão de que possamos ter nos nossos mais velhos o modelo de envelhecimento que queremos como sinônimo de bem viver e luta, além da ação política, pois sem sombra de dúvida há muita experiência e estratégias de luta a ser passada para as novas gerações. Esse é o lugar de honra na organização que os mais velhos criaram no Brasil há 45 anos atrás! Devemos estar preparados, de braços abertos para receber os nossos mais velhos e com os ouvidos atentos a escutar os seus conselhos e orientações, influindo nas decisões imprescindíveis para a luta.  
   O espírito ancestral vive nos ensinamentos e não abandonar ensinamentos implica em fortalecer os vínculos pensando na comunidade para mudar o que precisa ser mudado.Nesse sentido, sugerimos a criação de um Conselho de Anciões, formado pelos fundadores do MNU no Estado, que se reúna a cada 2 (dois) meses para análise de conjuntura e reflexão sobre a nossa interferência efetiva nos rumos e caminhos da militância. 


4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


      “ …Não há em lugar algum caminho fácil para Liberdade, e muitos de nós teremos que atravessar o vale das sombras da Morte, dia após dia, antes de alcançarmos o topo da montanha de nossos desejos…”

                                                                                                                                                  (Nelson Mandela)

   Não devemos temer as mudanças e nem ao novo Mudanças vem para o bem e o novo sempre advém da necessidade, do movimento da luta, e quase sempre da crítica e do avanço da luta, que é impermanente. São Paulo é o berço do MNU, portanto se encontra na vanguarda da proposição política e inovação que influencia todo o país.   

   Visando manter essa contribuição importantíssima para nossos irmãos e irmãs Brasil afora é que esta tese é apresentada. Temas imprescindíveis foram abordados neste documento onde o convívio pacífico e construtivo entre os divergentes é reconhecido como essencial para a nossa saúde mental, entre as fileiras de luta e o nosso Bem Viver.​

    Assim, o que esperamos com essa contribuição é promover uma maior amplitude do debate que esteja focado no bem-estar da nossa militância e na melhoria das relações entre nossas lideranças e militantes de maneira geral​ 
  Como dissemos não há projeto político para o povo negro possível sem democracia e a democracia necessariamente precisa ser um exercício constante vivenciado no MNU; por isso os GTS são tão importantes como forma de descentralização e fortalecimento das práticas democráticas internas da nossa organização política, portanto deve ser colocado no plano de ação da futura coordenação política do movimento no Estado de São Paulo visando a  implementação desta boa prática já existente Brasil afora.
   Com respeito aos nossos mais velhos é essencial visualizá-los como noss(à)s “griôs´s” o espaço para o reconhecimento e o ensino conforme a filosofia africana que dar a eles e elas o lugar de sabedoria e transmissores de conhecimento essenciais para nossas lutas e batalhas.
    A ética deve permear as nossas relações políticas dentro e fora do Movimento Negro Unificado a transparência, a democracia e o afeto não podem ser esquecidos no processo de construção política.
    E por fim acreditar em que um novo Palmares está entre nós. Somos os herdeiros que carregamos a chama Viva do Quilombo de Zumbi e Dandara. E não nos esqueçamos de África! Olhar para África! 

BIBLIOGRAFIA:

 

1 - GONZALEZ, LÉLIA Jornal Nacional do MNU 19ª edição  pg  8- 9;  maio de 1991.

2 - NASCIMENTO BEATRIZ introdução ao conceito de quilombo o negro na cultura do Brasil pequena enciclopédia da cultura brasileira Rio de Janeiro unibradad centro de cultura/Unesco, 1987.

3 - NASCIMENTO BEATRIZ e, Quilombo e intelectual quilombola e intelectual possibilidades nos dias de destruição Ponto e, A Luta dos quilombos ontem, hoje e amanhã editora filhos da África 2018 página 349

4 - CAMARÁ, GILMAR  Orin mimo Èṣù na tradição Nagô - Canto de tradição Nagô pernambucano. Gilmar Camará Pensamentos Recanto das Letras 2017. 

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